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A relação entre Elizabeth e Jacquetta Woodville com a bruxaria.


Foram Jacquetta ou Elizabeth bruxas, ou, pelo menos, interessadas pela bruxaria? 

Gravura que ilustra a lenda de Melusina.
Muito tem sido falado, para começar, da ascendência mítica de Jacquetta com Mélusine, uma "mulher serpente" que era uma suposta ancestral da Casa de Luxemburgo. Há pouca evidência, no entanto, que Jacquetta teve um interesse especial na lenda de Mélusine, e nem que Elizabeth o fez (em 1474 em um festival em Coventry, foi apontada a descendência de Elizabeth com os Reis Magos, e não com Mélusine.) Jacquetta possuía uma cópia do romance ancestral da deusa/fada mítica, mas apenas como parte de uma coleção de tratados e histórias das cruzadas e da Terra Santa. Mélusine era, de fato, uma história do século XV muito popular, e muitas outras senhoras bem-nascidas, além Jacquetta o tinha. Assim como possuir os livros de Harry Potter não faz de nenhum leitor moderno um praticante de bruxaria, possuir o romance de Mélusine não faz de uma dama medieval uma bruxa. 

Além de sua ancestralidade, aqueles ansiosos para encontrar alegações de que o casamento de Elizabeth para Edward foi conseguido por meio de feitiçaria têm apontado a data do casamento dada pelos cronistas: o dia 01 de maio (aka dia do trabalho aqui no Brasil, pra te lembrar que nem todo mundo tem a sorte de casar com um rei) perdão pela brincadeira, que calha a ser um dia depois do Grande Sabbath das bruxas de Walpurgisnacht. Um autor sugeriu, em completa seriedade, que Edward IV chegou a Grafton uma noite antes do casamento e que participou do ritual, apesar da completa falta de provas de que tal rito foi realizado em Grafton em 30 de abril, e muito menos que Edward ou qualquer um dos Woodvilles participaram. Outros afirmavam que a Edward foi dada uma poção do amor pela rainha e sua mãe. Embora esse cenário não é tão improvável quanto o outro, ainda é bastante implausível. A menos que a poção tivesse uma ação excepcionalmente longa, teria certamente falhado em algum momento na vida Edward. Será que estamos realmente a acreditar que um homem de dezoito anos que lutou para conquistar seu trono, seria incapaz de se desvencilhar ou anular um casamento que não era da sua vontade, que tinha sido enganado ou induzido a fazer?   

Ambas praticando bruxaria para atrair Edward em "TWQ".
O fato é que não há simplesmente nenhuma evidência, além das afirmações não comprovadas de inimigos de Elizabeth e Jacquetta de que a rainha não usou nada além dos meios convencionais - beleza e uma personalidade vencedora - para atrair Edward em casamento. (Afinal, nada menos do que quatro damas "comuns" se casaram com neto de Edward,  Henrique VIII - Tudo sem o benefício de bruxaria ou feitiçaria. Sim, homens poderiam sentir vontade de se casar com mulheres de ranking inferior na corte). A própria "evidencia" de Thomas Wakes, que levou Jacquetta para um tribunal, envolviam apenas imagens, não Grandes Sabaths ou elixires de amor - e se desintegrara em face do poder recuperado de Edward IV, com sua sogra negando vigorosamente suas acusações. Em 1484, as próprias acusações contra mãe e filha feitas pelo Parlamento de Richard III não apresentavam nenhuma evidência para apoiar a alegação de que ambas haviam praticado feitiçaria no casamento real de Elizabeth. Nesta época, Jacquetta estava morta e não podia se defender, enquanto Elizabeth estava quase em posição de levantar-se contra Ricardo III, que havia executado seu irmão Anthony e seu filho Richard Grey e que tivera seus filhos reais em seu poder (se eles já não tivessem sido eliminados) . Logo, era extremamente vantajoso para o novo rei apoiar tal ideia, uma vez que a legitimidade dos filhos de Elizabeth poderiam comprometer seu direito ao trono. Quando Henrique VII chegou ao poder e ordenou a destruição do ato do Parlamento que invalidava a anulação do casamento de Edward com sua rainha, já não havia qualquer necessidade de maiores esforços para se defender contra as acusações de bruxaria, afinal, sua filha, independente do que dissessem, já seria a rainha da Inglaterra.  

Não é inconcebível, portanto, a certeza que Jacquetta, Elizabeth ou seus familiares tentaram empregar meios sobrenaturais para atrair Edward para o casamento ou que utilizaram de alguma outra forma as imagens que estavam supostamente (e ironicamente descobertas em um momento politicamente conveniente) na posse de Lady Rivers. Também vale lembrar que há apenas alguns anos antes, Eleanor, Duquesa de Gloucester, a mulher do tio de Henrique VI,  Humphrey, Duque de Gloucester, havia admitido o emprego de Margery Jourdemayne, conhecida como "a bruxa de olhos ', para ajudá-la a ter um filho de Humphrey. O fato de que uma senhora de alto escalão, como a Duquesa de Gloucester, cujo marido era o próximo na linha de sucessão ao trono, nesse momento, investia em pessoas como Margery mostram que pessoas de alto status nem sempre eram sinônimo de inocência. Mas devido ao fato de as acusações contra Jacquetta e Elizabeth vierem exclusivamente de seus inimigos em tempos de turbulência, devemos pelo menos considerar as acusações contra elas com o maior ceticismo.


Majoritariamente traduzido de: http://www.theanneboleynfiles.com/jacquetta-woodville-and-witchcraft/

Especial RIII: Os filhos ilegítimos de Ricardo III.



Encarei alguns problemas pessoais no último mês que me impossibilitaram de postar aqui. De qualquer forma, sempre é muito difícil escolher um tema para postagem, uma vez que a dinastia Plantageneta é extremamente ampla. Decidi, portanto, iniciar uma sequencia de postagens chamada "Especial RIII" para desmistificar e até mesmo mostrar mais sobre a história de um dos reis mais polêmicos e injustiçados pela história: Ricardo III.Todos os textos serão extraídos do site "Richard III Society", uma organização dedicada na justiça do monarca. Espero que gostem! 


A imagem de Ricardo III apresentada por alguns historiadores é a de seriedade moral e puritana, em contraste com a de seu irmão Eduardo, vista como devassa e coberta de luxúria. É verdade que, enquanto Ricardo reconheceu publicamente dois bastardos (João de Gloucester e Katherine Plantageneta), seu irmão reconheceu nenhum. A diferença pode ser que os filhos ilegítimos de Ricardo nasceram antes de seu casamento, enquanto alguns de Eduardo nasceram depois: os rebentos de um homem solteiro não eram tão repreensíveis como eram os bastardos de um homem casado. Há alguma evidência de que Ricardo teve um terceiro filho ilegítimo, Ricardo de Eastwell, que não reconheceu publicamente em sua vida. Muito pouco se sabe sobre qualquer uma dessas crianças e este artigo tenta resumir estas informações escassas.

Primeiro, vamos para algumas observações gerais. É necessário dizer que, ao contrario do que muitas vezes é afirmado por romancistas históricos, não se sabe ao certo a data de nascimento de todos os filhos, nem quem são suas mães. Provavelmente tinham mães diferentes, por mais que pelo menos João de Gloucester e
Katherine Plantageneta, os dois mais abertamente reconhecidos, talvez o tinham, mas isso é conjectura pura. Nada se sabe sobre os primeiros anos de vida deles, embora seja possível que eles eram dois dos 'filhos' que se refere a documentação da casa do Rei em julho de 1484. 


João de Gloucester:
A primeira referência a John é de setembro de 1483, quando, de acordo com Buck, «[o rei] fez Ricardo de Gloucester, seu filho de base [o capitão] de Calais '. Ele foi, possivelmente, condecorado nesta ocasião. O nome Ricardo deve ter sido usado errado, uma vez que há a citação do nome João de Gloucester em uma concessão mais tarde dada para "nosso querido filho bastardo, João de Gloucester" que o fazia chefe dos escritórios do capitão de Calais, e das fortalezas de Rysbank, Guisnes, Hammes, e o tenente das Marcas de Picardia. Esta patente é datada de 11 de março de 1485, e dá a João todos os poderes necessários, com exceção da de nomear os administradores. Este direito foi reservado a partir do momento em que ele fizesse 21, o que nos faz deduzir que era mais novo que isso, mas sem sabermos quanto. Pode-se supor que ele não estava muito perto da idade, ou não valeria a pena fazer a citação. A patente descreve o rapaz como tendo "vivacidade de espírito, a atividade do corpo, e inclinação para todos os bons costumes (que) nos promete, pela graça de Deus, a grande esperança do seu bom serviço para o futuro". Estas observações podem ser pura invenção (ou refletir o orgulho dos pais) ao invés de fato objetivo, uma vez que na Carta que incita Eduardo de Middleham como Príncipe de Gales, expressões muito semelhantes são usadas. O anúncio inicial da nomeação para a Capitania de Calais oferece uma possível pista para o local de nascimento de João, já que ele está lá referido como João de Pomfret. 
Torre de Londres, onde João foi provavelmente preso
 

Parece provável que João já estava agindo como capitão de Calais antes da data da sua patente de nomeação, uma vez que nos Arquivos da Cidade de Canterbury ocorrem referências a pagamentos feitos em novembro de 1484 para um subsídio de vinho e pão 'para o Senhor Bastardo que mora em Calais ', e por um pique e vinho para' o Senhor Brakynbury Constable da Torre de Londres 'voltar da Calais do Senhor Bastardo ". A ligação de 'Senhor Bastardo 'com Calais deixa pouca dúvida de que é João de Gloucester o citado, mas tem implicações interessantes. Um mandado para entregar roupas para 'o Senhor Bastardo' datada de 09 de março de 1485, dois dias antes da concessão da Capitania de Calais, pode ter sido apresentada como uma referência a Eduardo V, que nessa data seria oficialmente designado como tal. Tendo em vista o pagamento de Canterbury, embora pareça mais provável que seja uma referência a João de Gloucester, entretanto, para alguns historiadores, pode ser interpretada como parte das evidências utilizadas para provar a sobrevivência em 1485 do filho mais velho de Eduardo IV.
 
A próxima referência mostra que João sobreviveu à morte de seu pai, e foi preservado, em certa medida por Henrique VII. Fora feita uma garantia para "João de Gloucester, bastardo, uma renda anual de 20 libras que segundo o prazer do rei, saia das receitas do senhorio ou mansão de Kyngestonlacy, integrante do ducado de Lancaster, em co. Dorset ". Esta concessão não é mesquinha, e talvez mostra que naquela época Henrique sentiu que não tinha nada a temer de um bastardo indubitável de seu falecido rival. Este estado não parece ter durado muito tempo, uma vez que a última referência aparentemente de João também é dada novamente a partir de um Buck que afirma que "com o tempo estes senhores infelizes sofreram (no momento da morte de Perkin Warbeck e do duque de Warwick) e houveram defesas ao falecido rei Richard III feitas de distância, e estes foram sido mantidos por muito tempo na prisão ", o que deduz que um grupo de homens, envolvendo João, foram executados uma vez que possuíam planos de fazer de Perkin seu governante. Embora Buck não nomeia a pessoa envolvida, não há nenhuma razão para duvidar de que João era uma dessas, pois ele era o único bastardo masculino abertamente reconhecido de Ricardo, sendo referido na Confissão de Perkin Warbeck de pessoas envolvidas em sua rebelião, ao citar o "filho bastardo do rei Richard ', em 1491. 

 Tem sido sugerido que na realidade, ele não havia sido executado na época da rebelião de Perkin, uma vez que há uma referência posterior que cita o nome do rapaz em uma entrada de rolo de Patentes de 1505. A referência é a um 'João Gloucestre', comerciante do Staple de Calais, a quem Henrique VII concedeu um perdão. É pouco provável que isso se refira ao filho de Ricardo, uma vez que o nome não era incomum. Por exemplo, havia um homem com esse nome, cidadão e mercador que fora nomeado conselheiro municipal de Southwark pela cidade de Londres, em 1460. A pessoa com este nome é descrita como morta em maio 1484. Logo, parece mais provável que um filho ou parente do conselheiro municipal 1460 de Southwark é o homem designado em 1505, e não o filho de Richard.


Katherine Plantageneta:
Katherine, a única filha, embora ilegítima, de Richard III, é primeiro citada em 1484, quando William Herbert, conde de Huntingdon (ex-conde de Pembroke) diz ponderar 'sobre ter como esposa Lady Katherine Plantageneta, filha do Rei, antes de Michaelmas do mesmo ano ".  Nada se sabe de Lady Katherine antes disso, nenhuma menção é feita em qualquer lugar sobre sua mãe, nem sobre quando ela nasceu. O fato dela ter se casado em 1484 não é um guia para saber sua sua idade: casamentos de crianças não eram incomuns no século XV, (Anne Mowbray tinha cinco anos quando ela foi casada com Ricardo, duque de York), mas ela não poderia ter sido mais velha que dezoito anos uma vez que o próprio Ricardo nasceu em 1452, e talvez seja improvável que tenha nascido depois do casamento do pai, em cerca de 1474. Ela tinha, assim, provavelmente entre dez e dezoito anos de idade. 

Rupert Young como Willian Hebert em "The White Queen"
A aliança de casamento foi mencionada em 29 de Fevereiro. Nela, além de concordar em se casar com Katherine antes do dia 29 de setembro de 1484, o Conde exigia em ter como dote terras que valiam £200 por ano. O rei, que concordou em suportar o preço do casamento, comprometeu-se a validar as terras e senhorios em um valor de 1000 marcas por ano e sob os herdeiros do sexo masculino do casamento. A validação do Rei estava sujeita a certas qualificações interessantes. A renda mensal do casal seria a do duque de Buckingham, uma vez que havia sido condenado por traição. As terras de Lady Margaret Beaufort foram passadas a seu marido após seu envolvimento na rebelião do duque, porém, depois da morte deste, deveriam ser dadas ao casal. Eles se casaram por volta de maio de 1484, uma vez que a concessão do produto de várias casas senhoriais em Devon, Cornualha e Somerset foram então feitas para 'William Erle de Huntingdon e Kateryn". Em 08 de marco de 1485 uma nova subvenção foi feita para o conde e sua esposa: uma anuidade de £ 152 a partir dos condados de Carmarthen e Cardigan, e do senhorio do Rei em Haverfordwest.

Nada mais se sabe sobre Katherine. Ela pode ter tido filhos, mas provavelmente não sobreviveram, uma vez que o herdeiro do conde fora Elizabeth, sua filha com sua primeira esposa, Mary Woodville. Também não se sabe quando ela morreu, mas parece muito provável que fora antes do Conde (embora ele certamente não se casou de novo). Ela pode ter sido morta por volta de 25 de novembro de 1487, a data da coroação de Elizabeth de York . Entre as listas dos nobres presentes nessa cerimônia há uma dos condes (incluindo o Conde de Huntingdon, seu marido) todos descritos como 'viúvos'. Se isto estiver correto (há dúvidas, uma vez que um dos outros condes na lista provavelmente não era um viúvo), Katherine foi provavelmente morta até esta data, mais ou menos com a idade de vinte. Outra pista para a data de sua morte pode ser dada pelo fato de que em 17 maio de 1488, Henrique VII reconheceu Herbert como conde de Huntingdon. Isso pode ser refletido como um desejo de confirmar a sua posição após a morte da esposa, ou naturalmente um desejo de consolidar a sua posição no mundo Tudor.

Ricardo Plantageneta:
Ricardo Plantageneta ou Ricardo de Eastwell foi uma figura misteriosa que pode, ou mais provavelmente, não pode, ter sido um filho de Ricardo III. As informações neste caso são ainda mais escassas do que para João e Katherine e consistem unicamente de uma entrada no registro paroquial de Eastwell, uma aldeia a três milhas ao norte de Ashford, em Kent. Na entrada se lê "Rychard Plantagenet foi buryed o daye xxij de Desember, ut supra Anno ', ou seja, fazendo menção que ali estava enterrado, sob o ano 1550. Esse registro é o fundamento de todas as histórias sobre o rapaz e parece ser genuíno. Na verdade fora uma cópia feita em 1598 pelo vigário Josias Nicholls, de acordo com um despacho proferido naquele ano de que todos os registros em papel existentes deveriam ser copiados em um único livro. O registro de papel original não existe mais. Para a citação de Richard Plantageneta ser desconsiderada o operador histórico em 1550 (Richard Styles), ou Josias Nicholls deveria tê-la forjado, mas para que?. Claro que ninguém sabe se o falecido acreditava ser um Plantageneta, ou se Sir Thomas Moyle, o proprietário de Eastwell, acreditava, ou ambos. Sir Thomas deve quase certamente ter sabido da inscrição.
Escombros da Igreja de Eastwell nos dias de hoje.
Tem sido dito que o nome do rapaz possui uma marca que só aparece nos nomes daqueles de sangue nobre. Esta história foi iniciada em 1767 por Philip Parsons, o então vigário de Eastwell. É verdade que há uma marca no nome de Ricardo Plantageneta, igual a dos outros nobres, mas a explicação para isso parece ser que elas foram feitas por um membro da família Finch, mais tarde proprietários de Eastwell, para marcar entradas que ele pessoalmente achara interessantes, independente do sangue.

Um outro elemento de prova que é algumas vezes citado para a existência de Ricardo Plantageneta seria o seu "túmulo". Ele ainda está na Igreja Eastwell, que é agora uma ruína, uma vez que fora danificada na guerra. Tem formato de túmulo altar, com recuos para latões, e ficava anteriormente no lado norte da capela-mor. É quase certo que o túmulo pertenceu a Sir Walter Moyle, que morreu em 1480; uma vez que a forma dos travessões de bronze mostra que originalmente abrigava pelo menos dois corpos, um macho e uma fêmea, esta aparentemente vestindo trajes de cerca de 1480-1490. Há também travessões de dois grupos, um para dois filhos e um para três filhas, abaixo das duas figuras principais. O túmulo certamente poderia não ter pertencido a Ricardo Plantagenet.Os outros detalhes da história, aparentemente, resultam de uma carta por um Dr Brett publicada em 1735. Esta diz, com muitos detalhes circunstanciais, que Richard foi reconhecido por seu pai Ricardo III na véspera de Bosworth, mas em particular, e que viveu na obscuridade após a batalha como um pedreiro em Eastwell. Sir Thomas Moyle, o proprietário de Eastwell Place, disse ter descoberto sua identidade e lhe deu uma casa para morar, onde permaneceu até sua morte, por volta da idade de oitenta e um. No entanto, há aparentemente nenhuma outra referência a Ricardo, por mais que Dr Brett afirmasse que a história era amplamente conhecida entre os Finch. Logo, é impossível concluir se a história era verdadeira ou não. 


Traduzido majoritariamente de:
HAMMOND, Peter - "Richard III Society": http://www.richardiii.net/2_2_0_riii_family.php#anne



5 curiosidades sobre a batalha de Bosworth


Especial 530 anos do fim da dinastia Plantageneta: seguem 5 curiosidades sobre a batalha que levou à morte de Richard III. 

1) Ao contrário de Richard, o rei Tudor não conduziu o seu exército:
Henrique Tudor era praticamente um novato em batalhas, permanecendo estacionado na parte de trás do campo enquanto suas forças eram lideradas pelo general Lancastriano, John de Vere, conde de Oxford. 

2) Ela não foi travada em Bosworth: 
Só se tornou conhecida como a batalha de Bosworth após 25 anos de ter sido travada. Em vez disso, os contemporâneos a conheciam como a batalha de 'Redemore', que significa lugar de juncos. Outros nomes para a batalha incluíam 'Brownheath' e 'Sandeford'.
O local de onde o conflito ocorreu foi agora localizado duas milhas do centro do campo de batalha, perto das aldeias de Dadlington e Stoke Golding. A paisagem teria sido um relevo pantanoso (que viria a ser drenado), através do qual corria uma estrada romana.

3) A Richard foi oferecido um cavalo para fugir da batalha, mas ele recusou:
"Deus me livre", ele teria dito. "Este dia eu vou morrer ou ganhar como um rei". Richard marchou em direção a Henrique Tudor com sua cavalaria montada, talvez alguns 200 homens no total, vestindo a coroa sobre seu capacete.

4) Richard teve um impressionante arsenal militar: 
Uma conta menciona 140 canhões, enquanto as buscas arqueológicas no campo de batalha encontraram mais de 30 canhões - mais do que qualquer outros descobertos em um campo de batalha medieval europeu.

5) Não fora o padrasto de Henrique, Thomas Stanley e sim o seu irmão que socorreu e provavelmente coroou o primeiro Tudor:  
Foi só quando Tudor estava em "perigo urgente" que os Stanleys - ou melhor, Sir William Stanley - veio em seu auxílio, colidindo com o lado de homens de Richard e varrendo-os para o pântano. Sir William não tinha nada a perder se Richard vencesse - ele já tinha sido declarado traidor dias antes. Entretanto, o seu esperto irmão mais velho, Thomas Lord Stanley, apesar de ser casado com a mãe de Henry Tudor, Margaret Beaufort, parece ter pensado melhor e ficou de fora da batalha por completo. Quando Henry foi coroado em uma colina próxima, uma fonte informou que foi Sir William Stanley, em vez de seu irmão que colocou a coroa na cabeça de Henry.


Richard III & Anne Neville: uma história de amor?




Durante séculos, os estudos sobre o último casal Plantageneta fora instigado através de obras do período Tudor, retratando os reis York (em especial nosso querido Richard III, derrotado na Guerra Civil que dera a coroa a Henry VII) de forma demoniacamente irônica. Entretanto, com o advento dos estudos modernos e contemporâneos surgiram imagens diferenciadas e humanizadas sobre o monarca, tornando-se comum romances retratarem a história de seu suposto "apaixonado" casamento. Mas essa teoria é plausível? Na nossa opinião Richard realmente teve um casamento feliz?

Sim, ele teve.

E, a propósito, Richard também não tinha um braço murcho, não era tão corcunda que possuía um calombo gigantesco nas costas e muito menos fora gerido durante dois anos no ventre de sua mãe. Estas descrições físicas são os produtos da propaganda Tudor, a maioria das quais nenhuma pessoa racional, pelo menos hoje dia, daria crédito, porém, a aparência horripilante e até mesmo o braço inútil parece ter ficado com a gente, proporcionando a imagem de uma criatura tenebrosa. Entretanto, a verdade parece ser que Richard tivera um ombro (o esquerdo) um pouco maior que o outro devido um caso comum de desvio na coluna, sendo franzino como o menino que era em contraste com o seu belo irmão George, duque de Clarence, um carismático, ou o seu irmão mais velho, Edward IV, um educado bon vivant e fashionista (até a segurança do emprego após 1471 supostamente o transformar em uma figura supostamente relaxada e mulherenga).


Interpretação do encontro segundo Shakespeare.
Richard, de fato, superou sua fragilidade de menino mais novo se destacando nas atividades viris habituais da época como: equitação, falcoaria, equitação, e dança. Tornou-se um cavaleiro  exemplar, capaz de atrair uma dama aos seus encantos. 

Mas voltando ao casamento. No Ato I sc.ii de Ricardo III de Shakespeare, o nosso protagonista, então Richard Duque de Gloucester, corteja a viúva Anne Neville de forma extremamente repulsiva. O encontro tem lugar em uma rua de Londres, no meio do cortejo fúnebre. Anne era a filha mais nova de Richard Neville, Conde de Warwick, conhecido como "o fazedor de reis" devido os seus talentos estratégicos (e marciais) ao garantir o trono de Inglaterra para o então usurpador da Casa de York Eduardo IV e em seguida, apoiando o homem que tinha deposto, o Lancastriano Henrique VI (pois é, não estava fácil para ninguém). A irmã mais velha de Anne, Isabel (ou Isobel) contra a vontade do rei Eduardo IV casou-se com George, duque de Clarence, irmão de Eduardo IV e nosso em questão Richard, duque de Gloucester.

Na cena do cortejo de Shakespeare, Anne recentemente havia perdido seu marido, o príncipe Edward (o ex-príncipe de Gales), filho do deposto (e posteriormente assassinado) Henry VI. Ele caíra na batalha de Tewksbury em 14 de maio de 1471, que dizimou as forças de Lancaster, dando início a anos de supremacia York.

Na peça é Richard quem o esfaqueara pessoalmente até a sua morte. Portanto, sabe-se que durante a batalha Edward fora esfaqueado mas a identidade do homem que entregou o golpe fatal permanece desconhecida. 

Anne com seus dois maridos, Edward e Richard.
Ao invés de Richard, o falecido Príncipe Edward é descrito como nobre e virtuoso. Entretanto, grande parte dos historiados modernos defendem o verdadeiro Edward de Lancaster como um garoto arrogante de 16 anos de idade. Ele e Anne (nascida em 11 de junho de 1456) casaram-se em 13 de dezembro de 1470 com a idade de 14: casamento puramente dinástico.
Voltando a sua famosa cena de cortejo em Richard III, Anne não poupa adjetivos para o seu perseguidor: "demônio", "ministro terrível do inferno", "diabo", "infecção mortal de um homem", "escravo diabólico", " porco ouriçado, e" homicida ". Eu acho que o meu favorito é "infecção mortal de um homem", embora "porco ouriçado" vem em segundo lugar. O símbolo de Richard era o javali, talvez por isso esta é uma das piadas finais, uma torção deliberadamente mal-intencionada que reduz uma criatura nobre para um animal desprezível. 

Mas tudo isso é pura fantasia.

A Inglaterra estava mais ou menos envolvida em guerra civil quando Richard era um menino, graças a rivalidade perpetua entre as Casas de Lancaster e York. Ele foi enviado para fora de risco, sendo tutelado pela família de Warwick em Middleham, Yorkshire propriedade do conde. Richard e Anne foram companheiros de infância, e como tal, sempre conviveram amigavelmente um com o outro.

Em 1470, o reinado do irmão mais velho de Richard, Edward IV, estava sendo desafiado por uma conspiração para restabelecer Henrique VI, fomentada por ninguém menos que seu próprio irmão, o duque de Clarence cuja sementinha do mal plantada pelo seu sogro, Conde de Clarence o fez acreditar que seria coroado.
Vitral com a imagem de Richard e Anne.

Richard, ainda no final da adolescência fora dirigido para comandar e garantir o norte para seu irmão Eduardo tendo em troca a permissão para casar com Lady Anne Neville. Quando voltou do norte para reivindicar sua noiva, ele descobriu que Clarence, cunhado de Anne tinha decidido que esta seria a sua aia  (Warwick havia sido morto na batalha de Barnet no domingo de Páscoa, deixando o status da menina como órfã aos cuidados da irmã mais velha). Ele reivindicara a parte da herança de Anne e Isabel para si e portanto não tinha vontade de vê-la casada, mesmo com seu próprio irmão mais novo.  
Na verdade, é Clarence o vilão desta parte específica da história. Ele jurou de pés juntos que Anne não estava em sua casa. Depois de uma exaustiva pesquisa, Richard encontrou sua noiva em Londres, disfarçada de ajudante de cozinha na casa de um dos amigos de Clarence e como um verdadeiro herói romântico, ele a resgatou e a trouxe ao santuário de St. Martin le Grand, protegendo-a assim de quaisquer esforços por parte de Clarence e seus adeptos de prende-la ou prejudicá-la. Ele mostrou para ela seu cavalheirismo sem limites e seguiram em frente com aquele casamento.

Insistindo que ele era o guardião da menina após a morte de seu pai, Clarence consentiu em permitir a boda mas com a condição de que o noivo não herdaria nenhuma de suas propriedades.

Anne e Richard eram primos e a fim de se casarem oficialmente era necessária uma dispensa papal com vista a sua consanguinidade. Mas ele era muito impaciente para esperar a papelada do Papa chegar. Em vez disso, em 14 de maio 1472, com a conveniência política sendo tão urgente como a paixão, ele aclamou sua amada em St. Martin le Grand e eles se casaram no local. A noiva estava um mês antes de seu aniversário de 16 anos. Por sua vez o noivo tinha 19 anos (ele já tinha pai de dois filhos bastardos que postarei sobre no futuro).


A coração do casal em The White Queen (2013).

O casal - que realmente se amava, pelo menos de acordo com o conceituado biógrafo e historiador do século XX, Paul Murray Kendall - imediatamente partiu para o Castelo Wensleydale longe de qualquer de seus parentes problemáticos (com o uso de minha licença poética para o termo, por favor). Eles tiveram apenas um filho também chamado Eduardo nascido em 1473, cuja saúde foi sempre delicada e muitas vezes a impedia de viajar com seus pais. Ele foi investido como príncipe de Gales em 08 de setembro de 1483, mas morreu durante a primavera de 1484 com a idade de 11. Richard e Anne estavam inconsoláveis, e foi dito que a morte do rapaz apressou a própria morte da mãe.

Ao contrário da trama de Shakespeare, em que Richard é suspeito de envenenar Anne a fim de casar com sua sobrinha, Elizabeth de York, acredita-se hoje que Anne tenha sofrido de um tipo de tuberculose, a mesma doença que matou sua irmã mais velha Isabel (sim, ela não fora envenenada por Elizabeth Woodville, ok Phillipa Gregory?). Sofrendo já pela dor e pela doença ela morreu no dia 16 de março de 1485, um pouco mais de cinco meses antes de Richard conhecer a ponta da espada que o matou no campo de Bosworth em 22 de agosto.

Richard ainda permanece um enigma para nós, um produto da violência de sua época; um irmão leal e administrador talentoso, mas, sem dúvida, com sangue em suas mãos. Em defesa Shakespeare: ele baseou sua peça na história escrita por cronistas Tudor como Edward Hall, Raphael Holinshed, e Thomas More. O Bardo de Avon era de fato uma sátira da vida de Richard, sendo lançado muito séculos antes do 16, quando a propaganda Tudor teria explodido. E ainda há testemunhas suficientes que observaram a conduta de Richard e confirmaram que ele era de fato um homem sem escrúpulos em relação a suas vontades, e existem inúmeros relatos ainda existentes que o apontam como um homem ambicioso e calculista como qualquer um de seus adversários, irmãos, sogro e o próprio Henrique VII.

 Entretanto... Teve um casamento feliz. O "tenebroso" Richard III. Quem iria pensar nisso?

Bibliografia:
CARROW, Leslie: http://historyhoydens.blogspot.com.br/2009/11/richard-iii-anne-neville-love-story.html