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Rosamund Clifford: a Rosa do rei Henrique II




A vida do rei Henrique II é uma das mais fascinantes de todos os reis Plantageneta, principalmente devido as mulheres a quem ele fora associado. Sabemos que uma dessas, Eleanor de Aquitânia, era uma figura enérgica e altamente política nas maquinações das cortes da França e na Inglaterra. A outra fora uma mulher que Henrique fizera o seu melhor para manter em segredo: "a justa" Rosamund Clifford.

Quem fora Rosamund? 
Seu pai era Walter Clifford, um nobre que ocupava uma casa fortificada no Vale Wye, onde as águas do rio Wye desembocava do País de Gales para a Inglaterra. Ele adotara o nome Clifford depois de tomar a propriedade do Castelo de Clifford. Ela nascera antes de 1150, exatamente quando, não se sabe, mas fora uma das pelo menos seis crianças. Diz-se que quando jovem fora enviada para Godstow, perto de Oxford, para ser ensinada pelas freiras, mas estudos modernos sugerem que sua única ligação com o local fora o seu sepultamento, uma vez que sua mãe possuía um jazigo lá.

Quando ela conhecera Henrique?
Fair Rosamund
John William Waterhouse, 1916
Public Domain
É possível que os dois tivessem se encontrado ainda jovens e que seu caso de amor começara antes de Henry tornar-se envolvido na política da França e da Inglaterra?Se a diferença de idade era de fato dez anos, parece improvável que os dois teriam se conhecido, visto que o rei nascera em 1133, sendo enviado de Anjou para Bristol em 1142. Isto pode até o colocar convenientemente perto do Castelo de Clifford nos pântanos galeses, mas Rosamund provavelmente nem havia sequer nascido. Henrique voltou para a Inglaterra em 1147 mas, novamente, a garota deveria ser uma criança pequena a aquela altura. Embora não haja uma data precisa de quando ela nasceu, foi dito em sua morte, em 1176,  não ter mais de trinta anos de idade, o que sugere uma data de nascimento de 1148 +/- 2 anos.Henrique nasceu em Le Mans, na França, tendo uma juventude bastante tumultuada. Era dito que ele possuia uma energia ilimitada, Herbert de Bosham até mesmo comparou-o com uma carruagem humana, metaforizando o habito de carregar tudo em suas costas. Era um homem rápido para explorar qualquer oportunidade dada e não perdeu tempo em 1152, ao tomar a mão de Eleanor de Aquitânia, uma vez que ela se divorciara do primeiro marido. Ele tinha apenas 19 anos de idade, sendo Eleanor onze anos mais velha que ele.
Assim, aceitando que é improvável que Henrique e Rosamund tenham se conhecido antes dele se casar com Eleanor, quando é que os dois amantes se cruzaram? Alguns relatos dizem que os dois se conheceram quando a rainha estava grávida do último filho do rei, João, em 1166. Henrique tinha em torno de trinta e três anos de idade e Rosamund vinte e três, e eles provavelmente teriam se conhecido próximo de Woodstock, durante confinamento de Eleanor, mas ainda há duvidas sobre a exata localização do encontro.
As ruínas da "casa" de Rosamund, no Blenheim's Great Park.

O relacionamento com o Rei
Acredita-se que Rosamund estava de passagem pelo palácio de Woodstock, quando Eleanor deu à luz a João, e que Henrique se apaixonou por ela durante a gravidez da rainha. Ainda existem aqueles que especulam que fora até mesmo uma das damas da corte, uma vez que seu nascimento não extremamente inferior.Henrique tomara durante muito tempo um cuidado imenso para manter Rosamund em segredo, e uma vez que até então havia mostrado pouca consideração por suas outras amantes, podemos supor que a jovem galesa significara muito mais que as outras para ele. A Rainha Eleanor, apos ter dado ao rei oito filhos, decidiu retornar a França, deixando o campo aberto para o caso entre Rosamund e Henrique florescer.Com certeza a ausência da Rainha havia facilitado o relacionamento de ambos. Dado o quanto Henrique viajava é extremamente provável que a jovem fazia parte de sua comitiva e talvez, neste ponto, o caso pode ter se tornado óbvio para todos.O rei criara uma casa para Rosamund na residência real em Woodstock. Não um palácio, mas uma casa para encontros. Anteriormente, é dito que já havia construído jardins para Eleanor ao redor da casa, completando a obra com um pavilhão e um labirinto. O labirinto tornou-se parte dos mitos e lendas que cercam Rosamund, sendo que provavelmente sequer existira, sendo fruto da mitologia ao confundido com o denso jardim. A lenda ainda diz que a propria Eleanor, numa crise de ciúmes, havia procurado a amante no labirinto, guiando-se através de um fio de seda e forçando-a a escolher os meios de sua própria morte: um punhal ou uma taça de veneno. Diz-se ainda que Rosamund escolheu veneno, mas a cena não passa de um mito. A única veracidade da história é provavelmente o fio de seda, mas que surge numa ocasião completamente diferente: o rei, após a sua morte, quis ter alguma ligação com o local de sepultamento da esposa, transferindo o padroado do convento de outro nobre para ele mesmo. Durante a cerimônia de transferência fora utilizado um pano de seda, mais tarde adaptado para um "fio de seda" nos relatos. Taí a relação de Rosamund com o tecido. 

Os filhos do casal 
Maude Fealy como Rosamund na peça Becket de 1905.
Não existe nenhuma evidencia ou relato de que eles tiveram filhos, abrindo possibilidades para o fato de ela nunca ter engravidado, ou ter perdido todas as supostas crianças, além da existencia de natimortos. Entretanto, não há nenhuma evidencia que um filho deles possa ter existido. Posteriormente, foi criada uma teoria em que dizia que Rosa era a mãe de Geoffrey Plantageneta, bastardo de Henrique que se tornara Arcebispo de York, ou de William Longspee, Conde de Salisbury, mas é impossivel ela ter gerado o primeiro, uma vez que eles apresentam pouca diferença de idade, e a maternidade de Salisbury era conhecidamente atribuída a dama Ida de Tosny.

Morte e sepultamento 
Rosamund morreu antes de seu trigésimo aniversário, em 1176. Sua morte é, como já comentamos acima, normalmente atribuída a Eleanor, entretanto, é completamente errônea. A primeira sugestão surge apenas no século 14, anos após sua morte e sugeria que ela havia simplesmente apenas esfaqueado Rosemund. A história aumentara na Renascença, ao incluírem a escolha entre veneno e a faca. A propaganda Vitoriana também é responsável pelo "renascimento" e reforço do mito, com um fundo machista e moralista, para "educar" as esposas, uma vez que coloca como vítima a submissa e injustiçada amante, em contraste a Eleanor, a monstruosa e assassina terrível, a esposa ciumenta. O recado dos homens para suas esposas então era: não sejam como Eleanor. 

Ao contrário do que dizem muitas historias sobre ela, não há evidencias que o rei tenha pago pelo seu sepultamento, uma vez que sua família já possuía um jazigo no convento de Godstow. Ele apenas se incluíra no patronato, como lemos anteriormente, embora isso tenha visto por muitos também como um agradecimento, uma vez que seu túmulo fora reposicionado em frente do grande altar, um local de honra. Infelizmente, 15 anos depois, o bispo Hugo de Lincoln fizera as freiras removerem o túmulo para fora da igreja, uma vez que era inapropriado uma "prostituta" para ser enterrada lá.
Seu túmulo então fora movido para a capela das freiras, onde fora visitado até destruído durante a dissolução dos Monastérios, por Henrique VIII. 

Fair Rosamund and Queen Eleanor by Frank Cadogan Cowper, 1920.

O legado de Rosamund Cliffort
Era dito que as cantigas e inscrições inglesas do latim, que fazem referencia ao latim do nome "Rosa Mundi" (rosa do mundo) ou "Rosa Mundi" (rosa pura), foram escritas para ela, entretanto, foram epítetos criados em homenagem a Virgem Maria. É provável que Rosamund Clifford fora nomeada (de forma criativa, uma vez que o nome não era tão popular assim na época) em honra da Virgem, e que as inscrições vieram da mesma fonte de cultura geral. 
Entretanto, é provável que, por outro lado, a flor galesa "Rosa Mundi" tenha sido batizada em sua homenagem, uma vez que sua lenda era extremamente popular na Idade Média. Talvez assim como os epítetos, tenham sido em homenagem da Virgem, mas uma vez que seu legado já era extremamente reconhecido na época, é justa tal atribuição. 

Sua história tornou-se uma lenda que sobrevivera a séculos, mesmo com escassas informações a seu respeito, o que atrai e aguça ainda mais o imaginário das pessoas.  Ela é lembrada na poesia e em escritos, sua suposta beleza inspiraram muitos pintores. Ela compartilha um lugar de visibilidade na história, como talvez a primeira impactante de muitas outras famosas amantes reais, tais como Alice Perrers ou Jane Shore. Elas permanecem enigmas, cercadas por mitos e lendas ao longo que suas histórias ainda são constantemente relatadas. 
  
Bibliografia: 
http://www.intriguing-history.com/fair-rosamund/
http://blog.oup.com/2014/09/eight-myths-fair-rosamund/
http://englishhistoryauthors.blogspot.com.br/2014/10/fair-rosamund-mistress-of-henry-ii.html



 

A caminhada da vergonha de Eleanor, primeira dama do reino e Cersei Lannister de Game of Thrones.




É inegável como inúmeras séries de ficção medieval se inspiram em personagens históricos, sejam eles famosos ou não. Enquanto o post completo sobre todas as semelhanças entre as personagens de Game of Thrones e os membros da dinastia Plantageneta sai ainda esta semana, não pude deixar de adiantar o paralelo entre o acontecimento ocorrido entre a pouco conhecida mas de vital importância no cenário da época, Eleanor Cobham, duquesa de Gloucester e primeira dama da Inglaterra, e Cersei Lannister. Mulheres poderosas, que na vida real ou fictícia, ousaram ser líderes de seus tempos e que acabaram, por consequência, sofrendo uma das punições mais humilhantes para figuras de sua estirpe.

Assim que vi a cena do último episódio de Game of Thrones, lembrei-me de imediato de Eleanor. Claro que outras mulheres sofreram destinos semelhantes (aposto que devido a minissérie The White Queen, muitas pessoas lembraram da infame amante de Eduardo IV, Jane Shore) mas o que a diferencia e coloca no mesmo patamar que Cersei é o qual alto subiram para cair: Eleanor, casada com o Regente da Inglaterra, era rainha em tudo menos em nome e Cersei já fora por muitos anos.


Mas quem fora exatamente Eleanor?

Nascida por volta de 1400 , provavelmente no castelo de Sterborough em Kent, Eleanor Cobham era filha de Sir Reginald Cobham de Sterborough e sua esposa Eleanor, filha de Sir Thomas Culpeper de Rayal. Tinha tudo para ser uma mulher comum, de nascimento mediano, dessas muitas que foram esquecidas pela história. Mas ela sempre ensejou algo maior que isso. E assim, entrou na vida do Duque de Gloucester, o então regente e tio do pequeno rei Henrique VII (sim, o marido de Margaret de Anjou. Enquanto isso, seu irmão mais novo, o duque de Bedford aka primeiro marido da infame Jacquetta Woodville era regente na França com sua esposa).

Assim como toda mulher "comum" da Idade Média, não existem relatos sobre sua infância ou adolescência. Sabe-se apenas que em reconhecimento da pequena ascensão de seu pai ela fora trazida a corte para o séquito de damas de companhia da nova esposa de Gloucester que vinha do exterior, Jacqueline, cuja a
Jaqueline de Hainault, primeira esposa do duque  e senhora de Eleanor.
impressionante variedade de títulos incluía duquesa da Baviera, condessa da Holanda e Zelandia e Condessa de Hainaut. Jacqueline estava fugindo de um casamento desastroso e esperava que os ingleses a ajudassem ter de volta seus territórios usurpados pelo seu tio/ex-marido. 
Após a súbita morte de Henrique V e a ascensão do infante Henrique VI, Jacqueline falsificou um divórcio de seu antigo marido em razão de consangüinidade e se casou com o tio do novo rei e Lorde Protector, Humphrey - o duque de Gloucester - e foi assim que Eleanor Cobham entrou em seu mundo. Acontece que ele nunca tinha sido uma figura popular na Hainault além de provavelmente também estar preocupado com o que poderia estar sendo feito contra ele na Inglaterra durante a sua ausência. Em abril de 1425, em seguida, Humphrey voltou para seu país, deixando sua esposa Jacqueline cuidando de si mesma. Ele nunca iria vê-la novamente.

Também retornando para a Inglaterra estava Eleanor,
que não desejava ficar mais tempo em terras estrangeiras, segundo o cronista Jean de Waurin . Descrita por Aeneas Sylvius como "uma mulher distinguida em sua forma", e por Waurin como "bela e maravilhosamente agradável", logo tornaram-se amantes. Mais tarde, seria alegado que Eleanor pagara a bruxa Margery Journemayne para preparar bebidas e medicamentos que induzissem o duque a "amá-la e se casar com ela."

Ambos atraentes, fãs do prazer e ambiciosos, eles abertamente exibiam seu relacionamento enquanto a pobre abandonada Jacqueline definhava no continente. Humphrey foi conhecido por ter tido dois filhos ilegítimos - os romanticamente nomeados Arthur e Antigone Plantageneta - Eleanor poderia muito bem ter 
Lady Eleanor Cobham.
  sido a sua mãe, mas se fosse é bastante provável que eles os teriam legitimado após seu o seu casamento legal, o que não ocorreu.

Em 1428 o Papa decidiu que o casamento de Jacqueline e Humphrey era inválido - ela não cruzou direito os T´s e nem acentuou os I's na sua "anulação" de seu primeiro marido.- Felizmente seu ex falecera, e assim não havia absolutamente nada que impedia Humphrey de se casar com ela de novo e fazer tudo legal.


Exceto o fato que ele preferiu se casar com Eleanor Cobham.

A nova duquesa não desperdiçava tempo certificando se todos haviam entendido seu novo status. Ela andava pelas ruas de Londres vestida com roupas extremamente luxuosas e acompanhada de tantos homens armados que quem olhava assumia que era alguém muito mais importante do que ela realmente era. Ralph Griffiths relatou: "Um cronista notou como ela exibia seu orgulho e sua posição por andar pelas ruas de Londres, maravilhosamente vestida e escoltada por homens de nobre nascimento." Ela foi até acusada de práticas extorsivas contra o Hospital de St. John em Pontefract. Seus contemporâneos lembravam-se dela como orgulhosa e espinhosa - embora o jovem Henrique VI parece ter gostado de sua tia, lhe dando muitos presentes. Em 25 de junho 1431, Eleanor foi admitida na fraternidade do mosteiro de St. Albans, de que seu marido já era membro e o ano seguinte, ela se juntou a um grupo ainda mais seleto: Fraternidade da Ordem da Jarreteira das senhoras. 

Eleanor pagando sua penitencia nas ruas de Londres

Em 1435 o irmão de Humphrey, o Duque de Bedford morreu, o que fez Humphrey o herdeiro presuntivo para o ainda jovem e sem filhos Henrique VI. Agora filha do cavaleiro sem importância era a herdeira do trono da Inglaterra!

Para todos os seus defeitos, o duque Humphrey era um homem culto e inteligente, com um amor pelo livros e é provável que Eleanor compartilhou seus interesses. Ela é conhecida por ter possuído um Sloane MS 248, descrito como um "semi-médico, trabalho semi-astrológico traduzida do árabe original". E foi o interesse de Eleanor na astrologia que viria a ser sua ruína. Em 28 de junho ou 29 de junho de 1441, Eleanor, jantando em seu alto estilo habitual numa cadeira alta digna de rei em Cheapside, ouviu falar das prisões de três dos seus associados, Mestre Roger Bolingbroke, um padre Oxford que também serviu como seu funcionário, Mestre Thomas Southwell  (um cânone e um reitor), e John Casa, que também serviu como capelão e secretário da duquesa. Os três homens foram acusados ​​de conspirar para provocar a morte do rei.

Resumirei os acontecimentos seguintes para que não fique cansativo em relação ao paralelo que farei a seguir (caso quiserem saber quem foram os responsáveis pela sua condenação, a posição de seu marido em meio a tudo isso e etc comentem abaixo e prepararei uma postagem especialmente detalhada sobre seu  
A arte imita a vida: a penitencia interpretada por Lena Headey.
trágico destino) mas Eleanor entrou em pânico, fugindo para Westminster, alegando santuário. Ela esperava que a lei da Igreja iria salvá-la de julgamento por traição, e nisso estava certa, mas nada poderia parar os tribunais eclesiásticos das acusações de bruxaria e da heresia. A investigação completa sobre sua vida e seus movimentos levantou evidências mais contundentes. A conhecida "bruxa" - Marjorie Jourdemayne - disse que, em 1420,  Eleanor a tinha contratado para produzir poções do amor que fariam o duque de Gloucester se casar com ela. A duquesa negou, alegando que as poções tinham sido encomendadas para ajudá-la a engravidar. No entanto, ela foi considerada culpada e seus co-conspiradores foram pendurados, arrastados, esquartejados e queimados.
Três dias depois Eleanor foi condenada a assinar um divórcio forçado de seu marido e a fazer penitência pública por seus pecados. Em 13 de Novembro, com a cabeça descoberta, usando apenas um vestido de um fino vestido preto e carregando uma vela de cera, ela foi levada de barco de Westminster até o aterro de Temple. Acompanhada por dois cavaleiros ela caminhou de Temple Bar a Catedral de Saint Paul, onde ofereceu-lhe uma vela. Dois dias depois, ela saiu do cais Swan em Thames Street para Christ Church. Em 17 de novembro, com a vela familiar na mão, ela fez uma terceira viagem, de Queenhithe para St. Michaels em Cornhill, tudo isso em caminhada. Os cidadãos, muitos dos quais viajaram até a cidade para testemunhar sua humilhação, tinham sido orientados para não molesta-la mas também para não serem respeitosos com ela.  
Como na obra de Martin, a multidão também se escarneceu com a duquesa.
Lena Headey, a atriz que interpreta Cersei Lannister, disse que provavelmente a rainha mãe retornará mais vingativa do que nunca, mas esse não fora o caso de Eleanor. Aquilo fora o fim de sua vida pública: ela fora exilada em diversos lugares e ilhas, terminando seus dias em Gales - aonde ganhava uma pensão de 100 libras do rei e com 12 criados, números elevados para uma mulher em desgraça, o que mostra a afeição de seu sobrinho Henrique VI por ela. Fora tão esquecida que poucos cronistas citaram sua morte, sendo estabelecido seu local e data de morte apenas em 1973.
Mulheres que ousaram reinar através de homens, acusadas pelas garras da religião e punidas de maneira humilhante. Mas ouso dizer que elas não foram vítimas da Igreja mas sim das intrigas políticas que as circundavam.

Realmente, custava caro ser mulher na Idade Média. 



Bibliografia:
https://erinlawless.wordpress.com/2013/07/10/hidden-historical-heroines-32-eleanor-cobham/
http://madameguillotine.org.uk/2012/09/03/the-duchess-downfall-eleanor-cobham/



Hugh Despenser: o amante do Rei Eduardo II


Criamos o post com a intenção de desmistificar um dos personagens mais intrigantes e que mudará o curso da história da Inglaterra sendo alvo de uma guerra civil: Hugh Despenser, o jovem.

Para isso, após muita leitura de conceituosos medievalistas, decidimos publicar as observações e argumentações da biografa contemporânea de Eduardo II: Kathryn Warner. Há muita controversa sob a polêmica figura de Hugh e seu relacionamento com o rei, entretanto, o artigo a seguir proporciona a visão mais moderna e recente dos estudiosos dedicados ao estudo da vida de Eduardo e sua corte. Mas lembrando que o blog está aberto a todas as possibilidades e teorias.
A Rainha Isabella, Eduardo II e Piers Gaveston,
sendo representados na peça de teatro de Christopher Marlowe

Hugh não fora o primeiro amante de Eduardo. Há relatos e documentos que comprovam que Piers Gaveston fora o seu primeiro favorito, quando este ainda era príncipe de Gales. Piers pagou sua posição com diversos exílios e por fim sua morte pelas mãos de diversos nobres que acreditavam que ele estava sendo beneficiado demais. A quantidade de documentos em torno de Piers me surpreendeu. Pode-se encontrar descrições precisas de seus exílios (os primeiros encomendados pelo pai de Eduardo II, Eduardo I) e de sua condição na corte. Entretanto, escolhemos fazer o artigo sobre Hugh? Porque?

Porque nós o achamos absolutamente fascinante: o homem fora rei Inglaterra em tudo, menos em título durante grande parte dos 1320, até sua execução hedionda em Hereford do dia 24 de novembro 1326. Em uma pesquisa recente, ele foi eleito o maior vilão britânico do século 14, e obteve 9% dos votos para o pior britânico de sempre! Vamos combinar, o homem que criaram boatos de ter extorquido dinheiro e terras de viúvas ricas (incluindo a sua própria cunhada), que se tornou um pirata quando exilado de Inglaterra, e que foi quase certamente o amante do tio de sua esposa, é muuuito mais interessante do que escrever sobre um homem que ajudava velhinhas a atravessar a estrada (embora talvez ele fez isso também, quem sabe?).


Primeiros anos: casamento e introdução na corte.

Hugh Despenser, o filho, nasceu em algum momento entre 1286 e 1290 (a título de comparação, Eduardo II nasceu em 1284 e Roger Mortimer, o maior inimigo de Despenser, nasceu em 1287). Sua mãe Isabel Beauchamp (falecida em 1306) era a filha e irmã do Conde de Warwick, e seu pai Hugh Despenser, o velho, era um grande proprietário de terras na região de Midlands e sudeste da Inglaterra. O pai do Despenser mais velho - chamado, inevitavelmente, Hugh Despenser - trabalhava nas aplicações de leis na Inglaterra e fora morto na Batalha de Evesham em 1265, lutando pela oposição do barão de Henry III e pelo futuro Eduardo I (pai e avô de Eduardo II). Felizmente para o Despenser pai - com idade de apenas 3 ou 4 no momento da morte de seu pai - seu avô materno Philip Basset era um barão monarquista e amigo próximo do irmão de Henry III, Richard da Cornualha, e isso o salvou da ruína. Após a morte de sua mãe Alina, condessa de Norfolk, em 1281, o Despenser pai herdou todas as propriedades Despenser de seu pai e as propriedades Basset de seu avô. Apesar - ou por causa - da oposição de seu pai para o rei, o Despenser pai fora um servo real leal durante toda a sua vida, o único homem que se manteve fiel ao  Eduardo II durante toda a duração de seu reinado, e conseguiu a incrivelmente difícil tarefa de retenção a favor e a amizade de ambos Eduardo I e o futuro Eduardo II durante os últimos anos da vida de Eduardo I, quando ele e seu filho tiveram conflitos em abundância. Eduardo I frequentemente o enviava para missões no exterior, para o Papa ou o rei da França - ele era claramente um diplomata e administrador talentoso e capaz, habilidades compartilhadas em igual medida por seu notório filho.

Eduardo II
Que o Despenser pai estava alta em favor de Edward I é provado pelo casamento de seu filho (do nosso Hugh!) em maio ou junho 1306, quando Edward casou o Despenser mais jovem com sua neta mais velha, Eleanor de Clare. É importante perceber que  fora Edward I, que organizou este casamento, NÃO Edward II. Só porque Edward II arranjou o casamento de Margaret, irmã de Eleanor para seu favorito Piers Gaveston em novembro de 1307, é frequentemente assumido que ele arranjou o casamento de Hugh e Eleanor também, mas Despenser não se tornou o favorito de Edward até 1318, quando ele e Eleanor tinha sido casados por 12 anos e tiveram uma ninhada de filhos. (Eu mesmo li um romance em que o autor tinha dito que Hugh e Eleanor se casaram tão tarde quanto 1321, precipitando assim a guerra Despenser. Surpreendente que alguém pudesse fazer tanta pesquisa, em seguida, obter uma data errada por uma completa 15 anos!) Esse casamento trouxe o Despenser mais jovem até a família real e deu-lhe uma grande quantidade de prestígio, embora pouco era presenteado com terra ou dinheiro neste momento. Para os primeiros anos do reinado de Edward II, Hugh praticamente não teve nenhum papel importante, embora seu pai fosse um aliado próximo e conselheiro do rei. Hugh simplesmente não era influente ou rico o suficiente para desempenhar um papel político.

Tudo isso mudou em 1314, quando o irmão de Eleanor Gilbert de Clare, conde de Gloucester, fora morto em Bannockburn com a idade de 23. Ele não tinha filhos (embora curiosamente a sua viúva alegou estar grávida de 3 anos !!) e seus herdeiros foram suas 3 irmãs. Como marido da irmã mais velha, Hugh reivindicou as melhores terras - Glamorgan, em sua maioria - e esta herança inesperada o colocou no caminho que acabaria por levar à sua própria execução e a deposição do rei.

Poucos meses depois que as terras Clare foram finalmente dividida em novembro de 1317, Hugh foi eleito como Camareiro Real de Eduardo, posição que controlava o acesso, física e por escrita, até o rei - uma posição extremamente poderosa. Ele usou essa proximidade com Eduardo para transformar a ex indiferença do rei, ou mesmo o não gostar dele em paixão. Isto é o que eu acho mais fascinante sobre Hugh. Ele e Eduardo devem ter conhecido uns aos outros durante toda a vida, como o pai de Hugh fora um cortesão e Hugh ainda vivia na casa de Eduardo quando este era príncipe de Gales, juntamente com cerca de 10 outros jovens, incluindo Piers Gaveston. A esposa de Hugh era sobrinha do Eduardo I, a quem ele gostava muito, e seu pai fora um grande amigo e aliado do rei. Apesar de tudo isso, não há a menor evidência de que Eduardo já gostara de Hugh ou fez algo para ele, exceto concedendo-lhe uma mansão em 1309. Como Hugh fez isso - transformou o desagrado de Eduardo em paixão? Eu adoraria ser uma mosca na parede para observar isso, especialmente porque Eduardo tinha outros favoritos entre Gaveston e Despenser - Roger Damory, Hugh Audley e William Montalvânia. Os dois primeiros eram casados ​​com irmãs de Eleanor de Clare e participaram da herança Clare, como um sinal de grande favor de Eduardo.


A conquista do poder: 

Em 1320, Hugh estava tão alta em favor de Eduardo quanto Gaveston tinha sido, mas muito mais perigoso. Gaveston nunca tinha sido interessado em poder político, só no dinheiro e prestígio de ser o favorito do rei. Hugh, por outro lado, era um homem muito inteligente e capaz, que sabia exatamente o que queria. Queria terra, mais terra, mais dinheiro e poder. Muita energia. Boatos se espalharam que ele era cruel, ganancioso e sem escrúpulos totalmente. Os barões que tinham matado Gaveston e banido os outros favoritos do rei como Damory, Audley e Montacute da corte devem ter se arrependido, pois abriram a porta para alguém que era muito pior. Eu não tenho tempo para entrar em uma explicação completa de seus muitos crimes, mas por 1321 ele havia provocado os manifestantes (os barões do País de Gales e ao longo da fronteira) em que é conhecido como a Guerra Despenser, quando milhares de pessoas atacaram as terras de Hugh e seu pai no País de Gales e Inglaterra, destruindo e roubando tudo o que podiam. Hugh e seu pai foram exilados da Inglaterra por alguns meses, durante o qual Hugh tornou-se um pirata no canal Inglês - um sucesso, como Edward III teve que pagar uma compensação aos comerciantes genoveses muitos anos depois.


Depois de algumas manobras complicadas e uma operação militar em 1321-1322, os Despensers foram retirados do exílio, e todos os inimigos de Eduardoe Hugh estavam mortos, presos ou tinham fugido para o estrangeiro. É interessante notar que quase todos os homens que Eduardo II tratava como seus inimigos neste período - com a notável exceção de seu primo, o conde de Lancaster - eram inimigos e rivais fato de Hugh, muitos dos quais sempre foram leais ao rei até surgimento e a ascensão de Hugh ao poder. Homens como Roger Mortimer, cuja família tinha uma rivalidade de longa data com os Despensers, Damory e Audley, os rivais de Hugh para a herança Clare, Mowbray e o conde de Hereford, rivais de terras e influência no País de Gales.


A queda de Despenser e o exército da Rainha Isabella (esposa de Eduardo II) que depôs o rei:

Até o final de março de 1322, Hugh Despenser o mais novo era todo-poderoso na Inglaterra e no País
Manuscrito mostrando Isabella e
Roger Mortimer.
de Gales. Seu pai, que era amigo de Eduardo II mas nunca fora o centro do governo, se juntou a ele em seu triunfo. Eles não permitiam o acesso de qualquer a Eduardo, pelo menos um deles deveriam presente - incluindo, surpreendentemente, a rainha Isabella, que não tinha permissão para ver o marido sozinha. Resumindo: os Despensers não dominaram o governo no período 1322-1326 - eles foram o governo. Isto pode não ter sido tão ruim, já que ambos eram homens capazes, inteligentes, com um talento para a administração. Mas - eles foram extremamente avarentos e extorquiam qualquer um que podiam - aprisionando as pessoas até que eles entregassem suas terras - e em pouco tempo se fizeram absolutamente detestáveis por absolutamente todos. Roger Mortimer escapou da Torre em 1323 e fugiu para a França, onde dois anos mais tarde ele se tornou o amante da rainha Isabella. Em setembro de 1326 eles invadiram a Inglaterra, e os Despensers foram horrivelmente executados: o pai em Bristol em outubro, enforcado em sua armadura e teve seu corpo como alimento dos cães, e os mais jovem em Hereford 4 semanas mais tarde , enforcado 50 pés de altura, castrado, estripado e decapitado. Eduardo II foi deposto e (é quase certeza) que fora assassinado na cadeia por ordens de sua esposa, a Rainha Isabella e seu amante. Ele estava tão intimamente associado a eles que era impossível derrubar os Despensers sem derrubar o rei.
A brutal morte de Hugh Despenser.

Isso levanta a questão: como exatamente Hugh conseguiu exercer tal controle esmagador sobre Eduardo? Por que ele deixava os comportar assim? Como foi dito no início do post, eu acredito que o rei e o mais jovem Hugh eram amantes - é difícil explicar o domínio de Hugh sobre ele de outra maneira. Em 1321, o conde de Pembroke, um aliado de Edward de que morreu em 1324, disse sobre (citando a Bíblia): "ele escreve nas rochas que ama outro mais do que a si mesmo '. Isso certamente parece indicar que Eduardo e Hugh eram mais do que apenas amigos e aliados. O biógrafo mais recente de Eduardo II, Roy Martin Haines, também declarou sua crença na natureza da relação sexual. Um cronista contemporâneo dos Países Baixos acreditava que Eduardo estava envolvido em um ménage à trois com Hugh e sua esposa - a própria sobrinha de Eduardo, Eleanor. Embora seja impossível provar ou refutar a história, eu acredito que a política sexual do reinado de Edward são fascinantes. Como o infeliz casamento de Eduardo com Isabella resultou em amantes que se tornaram vitais para a compreensão da queda do rei.

Então aqui chegamos - vimos a interessante história do homem que se tornou o amante de um rei, e destruiu os dois. Será que Hugh realmente amou Eduardo ou ele apenas o usou para chegar ao poder, do jeito é dito que seu grande inimigo Mortimer (provavelmente) fez com a rainha Isabella?

Texto traduzido majoritariamente do artigo da Biógrafa Kathlyn Warner: http://edwardthesecond.blogspot.com.br/2006/02/edward-iis-other-great-favourite-hugh.html

Em breve, teremos artigos sobre a queda exata de Eduardo II, a vida, ascenção e os planos da Rainha Isabella e de seu filho, Eduardo III, cuja prole iniciou a ideologia da Guerra das Rosas.